Pular para o conteúdo principal

O aumento da incredulidade e seu perigo

Em Lucas 18, o Salvador conta duas Parábolas - a primeira sobre um Juiz perverso, "que nem a Deus temia", conhecida como a parábola da viúva persistente. E a segunda, chamada de "o fariseu e o publicano". Após estas poderosas e inspiradoras lições, Lucas fala sobre como o Salvador tratava e considerava as criancinhas, menciona a história do Jovem Rico, prediz sua morte e ressurreição e cura um homem próximo a Jericó.

De todos os maravilhosos ensinamentos contidos neste capítulo, há um que, une todos os demais, e serve hoje, para ser o tema deste artigo. Trata-se da segunda parte do versículo 8:

"Quando porém vier o Filho do Homem, porventura achará fé na Terra?"

A preocupação do Senhor Jesus é clara. Na ocasião de seu Segundo Advento encontrará homens e mulheres de fé na Terra? Quando sua Segunda Vinda se der - e Ele mesmo disse que tal evento esta perto (D&C 33:18, 39:24, 41:4, 87:8, 99:5), mesmo às portas (D&C 110:16), haverá fé nas nações do mundo? Haverá fé entre os que tomaram sobre si o nome Dele ao serem batizados? Haverá fé na sua Estaca, ala ou ramo? Haverá fé em sua família? Haverá fé em seu coração?

A falta de fé gera medo e duvida, confusão, angústia, tristeza, orgulho. Os valores familiares e os preceitos morais são fragilizados e menosprezados. Sem fé não há esperança de um mundo melhor (Morôni 7:42, Éter 12:4)

O Direito de não crer.

É evidente que uma pessoa tem o direito de não crer, ou de crer em algo completamente diferente ao que é ensinado pelo Salvador. E precisamos lutar para preservar esse direito de liberdade religiosa. Neste sentido, os ateus, agnósticos e outros precisam ser respeitados em suas escolhas de não terem fé.

O Direito de não crer de uma pessoa, todavia, não pode coibir o Direito de crer de outra. E vice-versa. Inclusive temos o direito de agir conforme cremos, notadamente procurando diligentemente plantar a semente da fé nos corações de todos os homens.

E já que estamos falando de "direito", nada mais apropriado que refletirmos sobre a Parábola do Juiz Perverso. Lá, o Salvador conta que Deus admite, neste estado terrenal, que um homem "que nem a Deus temia, nem respeitava o homem" permaneça em seu cargo, gozando de prestígio e tendo poder para decidir questões de grande relevância. Esse magistrado ignorou o pedido de uma viúva fiel, várias e várias vezes, até que cansado com a insistência dela, decidiu fazer justiça. O Salvador conclui dizendo que Seu Pai, que é um Juiz perfeito atenderá todos os pedidos justos e compensará todos os males sofridos por seus eleitos - pois se pode um juiz descrente ao ser repetidamente solicitado fazer o bem, quanto mais não fará um Deus misericordioso, Justo e Perfeito por seus filhos obedientes?

Indiretamente essa parábola mostra que Deus tolera o descrente e o permite progredir. Afinal naquela época, e na nossa, um juiz goza de bastante prestigio. Ademais, mesmo os que não creem acabam procedendo corretamente.

Essa parábola não indica, porém, que a escolha do Juiz de não crer estivesse correta - ou que no último dia tal seria recompensado de maneira igual aos que decidiram crer.

Uma pesquisa mostrou que apenas 1 em cada 10 pessoas que deixam a Igreja de Jesus Cristo se filiam a outra denominação cristã - 9 se tornam ateus ou agnósticos! Uma das razões, talvez, seja a de que as criticas aos profetas, a liderança, ao Livro de Mórmon, aos Programas da Igreja, etc - acabam desaparecendo e dando lugar a críticas ao próprio Senhor e Sua Obra. Os afastados não encontram as maravilhas da Igreja Restaurada noutra. E essas mesmas pessoas acabam não apenas se tornando céticas sobre a organização e doutrina da Igreja de Cristo, mas se tornam desconfiadas de sua própria religiosidade. Passam a duvidar do próprio Deus e de seu Cristo.

É preciso salientar algo que disse o Elder Quentin L. Cook, dos Doze Apóstolos: "Alguns afirmam que mais membros estão deixando a Igreja hoje e que há mais dúvidas e descrença do que no passado. Isso simplesmente não é verdade. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias nunca esteve tão forte. O número de membros que remove o nome dos registros da Igreja sempre foi muito pequeno e tem sido significativamente menor nos últimos anos do que no passado. O crescimento em áreas mensuráveis, como membros com investidura com uma recomendação válida do templo, membros adultos dizimistas integrais e membros que servem missão, tem sido marcante. Repito: a Igreja nunca esteve tão forte." Ele também disse: "Nos últimos 25 anos, o número real de membros que deixam a Igreja diminuiu e a Igreja quase dobrou de tamanho. A porcentagem dos que deixam a Igreja reduziu consideravelmente." ("O Senhor é minha luz", Conferência Geral Maio de 2015).

Uma outra pesquisa Pew Center mostrou que a religiosidade esta diminuindo do mundo. A nova geração esta abandonando a religião organizada. De fato, de cada 3 jovens (Geração do Milênio), 1 deixa a religião. Parece muito com o que vimos no Livro de Mórmon pouco antes do aparecimento de Cristo nas Américas (3 Néfi 1:29-30).

Esse é um quadro triste de nossos dias, pois o valor das almas é grande a vista de Deus! (D&C 18:10)

Temos o direito de escolher a descrença, mas não podemos determinar as consequências desta escolha.

Escolher a Fé

O Elder Neil L. Andersen, dos Doze Apóstolos, disse: "A fé em Jesus Cristo é uma dádiva que recebemos do céu quando escolhemos acreditar, quando a buscamos e quando nos apegamos a ela." (Conferência Geral Outubro de 2010).

Já que a fé é uma escolha, a descrença também o é. Deus ordenou-nos que tivéssemos fé Nele e em Seu Filho Amado. Essa fé começa com o desejo sincero. Os discípulos rogaram no passado: acrescenta-nos fé! (Lucas 17:5). Cristo mostrou que a fé cresce e fortalece por meio da obediência (Lucas 17:10)

Essa obediência exige grande sacrifício. Ao escolhermos a fé precisamos deixar de lado logo as nossas redes e seguir Jesus (Mateus 4:20). O fato é que até consagrarmos tudo o que temos e somos não teremos desenvolvido a fé para exaltação. E a história do Jovem rico nos ensina isso.

Lá estava um jovem discípulo brilhante e com muitas posses. Jesus parece ter se admirado com o jovem fiel que guardava fielmente os mandamentos. Então o convidou para entrar num círculo íntimo e restrito de discipulos, que tem a garantia da Vida Eterna. Mas seria necessário consagrar suas posses - realmente, dá-las aos pobres. Tal pedido exigia uma fé celestial. Tal como Abraão, era exigido uma consagração total e absoluta. Mas o jovem hesitou, entristeceu-se muito e recuou. Era demais para ele, pois era muito rico. Ele não escolheu a fé.

A Parábola do Fariseu e Publicano também nos ensina muito sobre fé. O Fariseu tinha um falso conceito de eleição, achando que por jejuar duas vezes na semana e pagar um dízimo integral estaria salvo. Sua arrogância o fazia desprezar os demais. O publicano, humilde e sincero, via sua fraqueza e rogava por misericórdia. Assim Cristo ensinou que a humildade e submissão são elementos chave para uma fé real e poderosa.

Ele elucidou melhor ainda esses princípios quando algumas crianças se aproximaram dele, e foram repreendidas pelos discípulos. Sua pungente lição é essa: "Em verdade vos digo que, qualquer que não receber o reino de Deus como menino, não entrará nele" (Lucas 18:17).

Como recebemos o reino de Deus como uma menino? O Rei Benjamim explicou que uma pessoa precisa ceder "ao influxo do Santo Espírito e [despojar-se] do homem natural e [tornar-se] santo pela expiação de Cristo, o Senhor; (...) como uma criança, submisso, manso, humilde, paciente, cheio de amor, disposto a submeter-se a tudo quanto o Senhor achar que lhe deva infligir, assim como uma criança se submete a seu pai" (Mosias 3:19).

Tais atributos podem e devem ser desenvolvidos por todos nós, por mais que sejam difíceis. Jesus virou-se a seus apóstolos e lhes garantiu que a salvação era mesmo impossível aos homens, mas não a Deus. Por meio do desenvolvimento da fé, e do poder de Cristo, receberemos a Vida Eterna. E Cristo passa a explicar exatamente isso aos seus discípulos: que devem centralizar sua fé  Nele e em seu sacrífico expiatório. Infelizmente eles não entendem a plenitude de suas palavras na ocasião (Lucas 18:31-34).


A cura do cego em Jericó 

A última parte do capítulo 18 de Lucas, o Salvador cura um cego em Jericó. Há muito que podemos aprender nos poucos versículos desta passagem. Primeiro que, de fato, Cristo tem poder para realizar o milagre da cura física - e fazer um cego ver perfeitamente. Segundo que, uma pessoa espiritualmente cega também pode voltar a enxergar, se aplicar o que temos falado até aqui.

A atitude do cego também contém uma lição que todos devemos atentar, para desenvolver e manter a fé. Ao descobrir que Jesus passava por ali clamou para que fosse curado. Muitos o repreenderam, mas ele clamou "ainda mais". Jesus então pediu que o trouxessem e ele o curou. Ao fazê-lo, Jesus disse "Vê; a tua fé te salvou". E parece ter salvo não apenas ele, que passou a seguir o Mestre, mas também outros, pois a partir deste milagre "todo povo (...) dava louvores a Deus".

A fé é uma escolha individual - mas essa escolha afeta não apenas um individuo - mas muitos outros. Pondere os efeitos da falta de fé neste relato:

"Há poucos meses, após reunir-me com recém-conversos e membros menos ativos, um membro reativado, um senhor da minha idade me procurou e disse: “Sou um dos que foi menos ativo durante a maior parte da vida. Afastei-me da Igreja na juventude. Mas agora estou de volta, e trabalho no templo com minha mulher”.
Para fazer com que ele soubesse que tudo estava bem, respondi desta forma: “Tudo está bem quando termina bem”.
Ele replicou: “Não, não está tudo bem. Estou de volta à Igreja, mas perdi todos os meus filhos e meus netos. E agora estou vendo meus bisnetos se perderem — todos estão fora da Igreja. Não está tudo bem”.
Em nossa família, temos um antepassado que se filiou à Igreja na Europa, nos primeiros dias da Igreja. Um de seus filhos se tornou inativo. Minha mulher e eu tentamos calcular quantos seriam os descendentes inativos daquele antepassado.
Foi fácil para nós concluir que nessas seis gerações, com uma aproximação aceitável, podem ter-se perdido cerca de 3.000 membros da família. Projetemos isso para mais duas gerações. A perda poderia teoricamente se aproximar de 20.000 a 30.000 filhos de nosso Pai Celestial." ("Resgate para um Crescimento Real", Bispo Richard C. Edgley, Conferência Geral Abril de 2012)
Somos responsáveis por nossa fé. E também, em certa medida, pela fé de outros ao nosso redor. Portanto, desenvolvamos maior fé e ajudemos outros a colherem os delíciosos frutos de uma fé viva, que cura, ilumina, pacifica, eleva, inspira e salva.

Conclusão

Quando Cristo voltar encontrará o mundo em qual estado? Ele disse em outra ocasião que se os últimos dias não fossem abreviados nenhuma carne se salvaria. Acrescentou que a "redução" do tempo nos últimos dias se daria devido aos eleitos (Mateus 24:22).

Lucas 18 trata dos eleitos. Verdadeiramente parece nos ensinar como se tornar um eleito de Deus, e estar preparado para o retorno de Cristo, mantendo a fé. Precisamos fortalecer e inspirar e divulgar a palavra da fé para que haja mais alegria e esperança no mundo, e para que mais pessoas sejam salvas na ocasião da Segunda Vinda. Que possamos fervorosamente servir.


______________

Recomendo três ótimos discurso sobre Fé:

- Fé - a Escolha é Sua - Conferência Geral Outubro de 2010
- Eu Creio, Senhor! - Conferência Geral Abril de 2013
- Ajuda minha incredulidade - A Liahona Janeiro de 2002

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Meus 4 discursos favoritos de Elder Robert D. Hales

Com grande tristeza, durante a última sessão de Conferência Geral de outubro de 2017, recebemos a notícia de que Élder Robert D. Hales falecera. O Élder Robert D. Hales foi apoiado como membro do Quórum dos Doze Apóstolos da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias no dia 2 de abril de 1994. Desde então, tem discursado durante as Conferências Gerais. Revi seus discursos que se encontram no site da Igreja , e relembrei com gratidão seus muitos ensinamentos. Porém, entre todos os seus discursos, há quatro que se destacam. Evidentemente se destacam pra mim. Talvez, se vocÊ tivesse que escolher quatro discursos - entre todos os dados pro Élder Hales, escolheria outros. Ainda assim, permita-me apresentar os meus favoritos: Ser um Cristão mais cristão No primeiro discurso , dado na Conferência Geral de Outubro de 2012, o Élder Hales ensina o que significa ser um verdadeiro cristão. Ele também diz o que significa tomar sobre nós o nome de Cristo. Ele explic...

Quem é João, o Autor de Apocalipse?

Revelação de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu, para mostrar aos seus servos as coisas que brevemente devem acontecer; e pelo seu anjo as enviou, e as notificou a João, seu servo (Apocalipse 1:1) Zebedeu, um judeu, teve dois filhos muito conhecidos por toda cristandade. Eles foram chamados de Boanerges pelo Salvador, que significa filhos do trovão[1] (Marcos 3:17). O primeiro é Jacó, que por conveniência das (más) traduções, chegou até nós como Tiago (forma grega do hebraico Jacó). E o segundo é João. O nome de João significa "dom de Jeová". Esse João junto com seu irmão Tiago foram escolhidos para servirem no primeiro Quórum de Doze Apóstolos, formado pelo Senhor enquanto estava na mortalidade (Mateus 12:1-5). Mais tarde os dois irmãos, junto com Pedro formaram o Quórum da Primeira Presidência da Igreja Primitiva[2]. João e Tiago eram pescadores e tal como Pedro e André deixaram suas redes para seguirem o Salvador, e tornarem-se pescadores de homens (Mateus 4:18-22)...

Introdução à Teologia

O que é Teologia?  Essa é a pergunta vital para iniciarmos estudos nesta área. Antes, porém, de trazer uma definição é útil contar que a Teologia sempre foi uma disciplina de interesse dos santos dos últimos dias. Um trecho da História da Igreja ilustra isso: “Depois dos primeiros esforços da Escola de Profetas, em 1833, a Escola dos Élderes reunia-se durante os dois invernos seguintes, quando os homens não estavam tão ocupados trabalhando na fazenda ou em suas designações missionárias. Ela reunia-se em uma sala de aproximadamente nove por onze e meio metros, no andar térreo da oficina tipográfica, logo a oeste do templo. Seu propósito era o de preparar homens que iriam sair como missionários ou para servir em outros chamados da Igreja. O currículo incluía gramática inglesa, redação, filosofia, governo, literatura, geografia e história antiga e moderna.  A teologia, porém, era a matéria que recebia maior ênfase. Um importante resultado da Escola dos Élderes foi uma ...